O próximo divisor de águas

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No final do seculo XV, um comerciante alemão chamado Johannes Gutenberg inventou um dispositivo que fazia cópias: a prensa móvel. O novo equipamento, que hoje é algo até banal, tinha capacidade de fazer cerca de 3500 páginas por dia, todas iguais, padronizadas e com um acabamento muito melhor que as 40 páginas que um escrivão conseguia reproduzir, a mão e com uma caligrafia medíocre, em um dia de trabalho. Isso mudou a história da humanidade.

Mudou não só pelo fato de difundir cultura e conhecimento de forma industrial, mas pelo salto produtivo que isso trazia ao processo por si só. O mesmo aconteceu com a invenção do motor a vapor, tecnologia que aposentou os cavalos como “principal” força de tração e que, nos 50 anos seguintes, foi aplicada em praticamente todos os setores da economia moderna, da tradicional indústria têxtil à ainda incipiente indústria de extração de petróleo.

A prensa trouxe a humanidade para a “Era Moderna”, enquanto o motor a vapor causou a “Revolução Industrial”. Achar o próximo divisor de águas: esse é o grande desafio dos empreendedores e grandes investidores mundo afora atualmente. Quero falar de três possibilidades que estão na mesa, hoje.

Proteínas de origem vegetal seguem sendo a menina dos olhos do setor de alimentação, com potencial de revolucionar o modo como nos organizamos, como seres humanos, desde quando deixamos de morar em cavernas e passamos a viver em grupos sociais organizados,  ao redor de fazendas e regiões produtoras de comida. Aliás, fazenda verticais ou urbanas tem ganhado a atenção nesse contexto agro, conseguindo produzir mais comida com menos recursos naturais e em menos tempo, com destaque para a redução do uso de água, que em alguns casos chega a 95% menos que na agricultura tradicional.

Computação quântica é outro potencial candidato a revolucionar a humanidade, e de forma inimaginável, inclusive. É difícil prever como o uso de um PC quântico pode mudar nossa realidade, mas é comparável a voltar a viver em um mundo sem eletricidade. Quando isso acontecer, campos de pesquisa inteiros, de biologia a ciência espacial, serão diferentes. Para se ter uma ideia da escala da coisa: recentemente, o Google divulgou que seu PC quântico, chamado de Sycamore, executou em 200 segundos um cálculo que o supercomputador clássico mais avançado do mundo levaria 10 mil anos para completar. Simples assim.

Minha terceira aposta vai para a busca de energias renováveis. Hoje temos grande eficiência e relativo sucesso em aproveitar fontes disponíveis na natureza, como energia solar ou geotérmica, mas o divisor de águas será dominar o processo de Fusão Nuclear, que é o mesmo processo de geração de energia que acontece em estrelas, como no nosso Sol. Nesse processo, dois átomos “menores” se fundem em um átomo “maior”, liberando muita energia. 

Gerir fontes de energia quase que infinitas é um passo chave para a evolução de tudo que conhecemos, uma vez que tecnologias avançadas de carros e aviões elétricos, grandes bancos de processamento de dados, computação em nuvem e Inteligencia Artificial consomem quantidades colossais de energia, e continuar queimando carvão para alimentar tudo isso não é uma opção no horizonte.

Não importa qual tecnologia será desenvolvida primeiro. Talvez a ordem dos fatores aqui não altera tanto o resultado. O fato é que a velocidade entre mudanças críticas na nossa sociedade diminui a cada geração, e estar aberto a novas realidades é algo que temos que aprender, como espécie, e como empreendedores. Seja a origem dos nossos alimentos, como processamos nossos dados ou de onde vem a energia que alimenta nossas casas, tudo que conhecemos hoje irá mudar, e não demorará quase nada para isso acontecer, de novo.

Thales Consentine – Caffeex