Desafios iguais, planetas diferentes

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Esta semana, o drone Ingenuity, da NASA, tentará fazer o primeiro voo “humano” em um ambiente extraterrestre, que dando certo, pode revolucionar o modo como exploramos planetas, ou pelo menos, como exploramos Marte. 

Apesar de parecer simples, os desafios são enormes: como se já não bastasse a viagem da Terra até a superfície do planeta vermelho, é preciso montar o drone de maneira correta e depositá-lo em um lugar seguro para os voos, além de desenvolver algorítimos de controle autônomo e comunicação entre o drone e o rover, dado que a distância entre os planetas não permite que o Ingenuity seja controlado da Terra. Tudo isso em um ambiente com alta radiação, noites congelantes e com uma atmosfera muito pouco densa, apenas 1% da densidade da atmosfera terrestre, o que deixa bem difícil qualquer objeto alçar voo.

Esse teste de conceito é o primeiro do seu tipo e acontece como parte da missão do rover Perseverance, o maior, mais moderno e mais caro rover que já conseguimos pousar em Marte, pesando mais de uma tonelada e do tamanho de um carro SUV. 

Mas esse sucesso até aqui não foi fácil de ser alcançado. As missões para nosso vizinho vermelho começaram na década de 60, e contam com um vasto histórico de erros e  missões que não chegaram nem perto de sair do nosso planeta. Andar em solo marciano mesmo, aconteceu somente em 1997, quando um rover do tamanho de uma caixa de sapato provou ser possível mover-se com rodas por lá. 

Desde de então, mais quatro rovers foram enviados à Marte, cada um cumprindo uma função específica para que a próxima missão acontecesse. O rover atual, por exemplo, tem como objetivo buscar indícios de vida num lugar que acreditamos que tenha sido um lago ou estuário há mais de 3 bilhões de anos, mas que só foi possível porque os rovers anteriores provaram que Marte já teve, no passado, uma atmosfera mais densa, água em estado líquido e elementos químicos compatíveis com a vida da forma que conhecemos.

Mas oque isso tem a ver com o agro?

Bem, provar conceito envolve tempo, planejamento, e muitas vezes, possui um ciclo longo de teste. Assim como em Marte, onde cada missão pode levar 10 anos para gerar resultados (ou explodir no seu lançamento), no agro temos ciclos de safras que levam meses ou anos para serem concluídos. 

Um experimento, seja numa plataforma comercial para negociar adubo, ou na pesquisa de um novo defensivo, envolve pelo menos um ciclo produtivo, e muitas vezes apenas uma interação com a tecnologia em desenvolvimento entre o plantio e a colheita. Certo ou errado, novos teste só poderão ser realizados ao final de cada ciclo agrícola, o que consome muito tempo, esforço e dinheiro. 

Outra comparação interessante é a questão da comunicação. Por incrível que pareça, se comunicar com Marte pode ser mais rápido que com um drone que voa sobre uma lavoura de soja no MT. Isso acontece porque muitas regiões produtoras não possuem cobertura de sinal de internet, comunicação via satélite não é tao acessível ainda e para obter os dados do drone, é preciso aguardar a sua volta, consumindo muito mais que os 15 minutos necessários para um sinal emitido da Terra ir e voltar ao planeta vizinho.

Inovar leva tempo. É preciso ser resiliente, estar preparado para recomeçar a qualquer momento, mas pode trazer resultados incríveis e inesperados de uma hora para outra, seja em Marte, ou no Mato Grosso.